Quantas histórias deixam de ser contadas todos os dias?

Quantas histórias deixam de ser contadas todos os dias?

Com toda a sua pluralidade de vozes, rostos e sotaques, abrimos caminho para repensar o audiovisual brasileiro negro. Somos a primeira ou talvez segunda geração de criadores pretos brasileiros que têma oportunidade de derrubar os muros que nos separam de uma narrativa verdadeiramente plural. Palavras como diversidade e representatividade não dão mais conta da multiplicidade da negritude. Nossas histórias são urgentes, ao passo em que mais pessoas querem se ver refletidas em diferentes telas. 

Como realizador preto e amazônico, reconheço essa responsabilidade de não só consumir, mas produzir conhecimento, em forma de arte. Ao fortalecermos as narrativas negras, passamos de personagens marcados por estereótipos a protagonistas das nossas próprias histórias. Cinema negro não é, nem deve ser tratado como um gênero. É uma revolução. 

A internet potencializou essa conexão entre profissionais negroseapresentou uma nova janela para as nossas narrativas. Na prática, porém, enfrentamos disparidades que são produto de uma discriminação racial que ainda insiste em existir. Há um desnível de profissionalização, principalmente na tríade criativa – roteiristas, produtores e diretores negros – e faltam recursos para que a gente possa realizar. 

No Norte, por exemplo, temos apenas um curso de universidade federal relacionado ao cinema. O Amazonas é o terceiro estado do Brasil com maior demanda de locação internacional, depois do Rio de Janeiro e de São Paulo. Mas são poucas as produções que nascem lá. Então, pergunto: quantas histórias deixam de ser contadas, todos os dias?

O que estamos passando, hoje, com a pandemia, é muito difícil. E, em momentos como esse, nós, profissionais negros, fazemos o que sempre fizemos: nos reinventamos. Fundos como o FAPAN, apoiados por doações como a da Netflix, como anunciado hoje, são importantes para transformar vidas, apoiando tanto o profissional autônomo quanto os produtores negros. Esses produtores  encabeçam as chamadas empresas vocacionadas, dedicadas à produção de conteúdo identitário. Entendem a necessidade de uma transformação na cadeia de produção, que passa desde a criação das nossas narrativas até o acesso e inserção dessas histórias nas mais diferentes telas, para que elas possam circular e dialogar com seus espectadores. 

Quando a luz do cinema acende ou quando a gente termina de maratonar uma série, o que reverbera e se transforma de fato em ação? É para isso que essas produtoras independentes existem – e devem continuar existindo.

Vidas negras importam, histórias negras também

Um ano após a pandemia ter abalado profundamente a comunidade criativa ao redor do mundo, e em meio a uma nova onda no Brasil, nós, da Netflix, reconhecemos a importância de apoiar profissionais e organizações do audiovisual negro e suas permanências no mercado audiovisual.

Portanto, estamos doando R$3 milhões ao FAPAN (Fundo de Amparo aos Profissionais do Audiovisual Negro), beneficiando 875 profissionais autônomos e 275 representantes legais de empresas vocacionadas. As inscrições estarão abertas neste site a partir de 21 de março – Dia Internacional contra a Discriminação Racial. A iniciativa faz parte de um fundo de 150 milhões de dólares da empresa, que foi administrado em mais de 20 países, criado para apoiar aqueles em maior dificuldade no setor de produção audiovisual em países onde a Netflix tem uma grande base de produção.

Responder ao racismo e à injustiça com mudanças significativas também exigirá a criação de oportunidades a longo prazo. Como um primeiro passo, no ano passado, nos comprometemos a apoiar a comunidade negra – com foco na geração de oportunidades, em particular para a comunidade criativa. R$2 milhões desse compromisso foram destinados à APAN, Instituto Querô, Instituto Criar e Instituto Nicho 54 para programas de mentoria, treinamento e capacitação de talentos negros em todo o Brasil. 

Vidas negras importam e suas histórias também. Esperamos que essas iniciativas – somadas a tantas outras que ainda são necessárias – possam reduzir um pouco as desigualdades e fazer com que essas potências, espalhadas pelo Brasil, se encontrem e ampliem suas vozes. Assim, mais brasileiros também poderão se ver refletidos na tela.

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