Hunters

Hunters (1ª Temporada) – Crítica

Hunters se vende como uma série divertida e violenta de judeus caçando nazistas, mas encontra espaço para falar sobre temas muito mais profundos e atuais ao fazer com que o conflito central se reflita em problemas que permanecem ao longo dos anos.

Nas entrelinhas, a série traz a herança histórica como um problema que a sociedade insiste em fingir que não existe. Ao mesmo tempo que na série os judeus caçam nazistas infiltrados até no governo americano, na vida real vemos o neonazismo crescendo, o antissemitismo presente em diversos países, os negros sofrendo por causa de uma estrutura que vem desde a escravidão, mulheres lutando até hoje por igualdade, entre muitos outros problemas históricos que insistem em se fazer presentes.

Para isso, a série escolhe o caminho mais difícil e perigoso, mas toma o devido cuidado para não incitar reações extremas. Primeiro, porque ela usa a violência e a vingança como premissa. Segundo, tudo ocorre dentro de uma lógica de teoria de conspiração. Ou seja, uma guerra secreta entre judeus e nazista, debaixo do nariz da sociedade, mas ninguém se dá conta.

Entretanto, apresenta os devidos questionamentos morais aos protagonistas fazendo com que o público julgue se o que eles estão fazendo é certo ou errado. Enquanto os nazistas são vilões unidimensionais… mas quando se trata de nazistas, não tem porque tratar isso como um problema, certo?

Já a conspiração aqui é abordada de forma absurda, de certa forma até ridicularizando àqueles que acreditam em bobagens como terra plana, globalismo, marxismo cultural etc. A única que é levada mais a sério é a crítica aos Estados Unidos por terem usado nazistas na Nasa durante a corrida espacial, algo que é mais real do que muitos pensam.

Hunters copia Bastardos Inglórios?

Passado o lado mais filosófico, vamos à camada mais superficial de Hunters. A série indica inicialmente que será uma “sequência” de Bastardos Inglórios. A cena de abertura é sem dúvida a mais tarantinesca da série.

Porém, aos poucos, a série começa abandonar um pouco o tom satírico, violento e exagerado, ao passo que vai construindo uma base dramática para os seus personagens. Os acontecimentos no campo de concentração, sempre filmados em tons de cinza, trazem o lado mais perturbador da série. Enquanto isso, o que se passa em 1977 é sempre mais colorido, quase como uma fantasia antinazista.

E é nesse momento que a série começa a se perder ao querer ser mais do que precisava. A indecisão entre o gênero central (sátira, suspense, drama) também aparece na direção, que sempre opta por uma hiperestilização aleatória. Plano-holandês usado à exaustação até perder o sentido, animação em um flashback que não aparece mais, diversas interrupções para fazer piadas, como a apresentação dos personagens e os programas de TV, que surgem sem nenhuma consistência, entre outros elementos.

Além disso, Hunters perde a mão na quantidade de referências. Enquanto algumas são legais e nos situam com as referências dos personagens ou até na narrativa a ser seguida (como os as HQs e seus heróis), outras soam completamente forçadas. Por exemplo, a aleatória frase sobre Os Doze Condenados.

E o final da série é mais um fator a mostrar como a série acha que pode atirar para todos os lados. Ele vai quebrar completamente a lógica proposta em prol de uma segunda temporada, que promete ser ainda maior do que a primeira.

Personagens e atuações

Entretanto, ainda que derivados, os personagens nos cativam e nos fazem continuar interessados pelo desenvolvimento da série. O capanga neonazista à la T-1000 não é original, mas é perigoso o suficiente.

O grupo de Judeus formado pelo mentor mais velho, o jovem aprendiz (que vai seguir a jornada clássica do herói), o ator inseguro, a freira fria e louca, o casal de velhinhos fofos, o ex-militar traumatizado e a personagem praticamente tirada de um filme do blaxploitation estão longe de ser novidades também. Mas aos poucos começamos a conhecer mais de seus dramas e motivações. E, assim, fica mais fácil de comprar a missão deles.

E tudo fica ainda melhor porque Al Pacino se diverte em sua primeira aparição em séries de TV, mas também entrega dramaticamente. Enquanto isso, Logan Lerman cumpre bem seu papel, apesar de escutar frases de efeito à torto e a direito.

O único grande problema do protagonista é a habilidade que o faz ser útil ao grupo. É quase um poder que surge do nada e a série não faz questão nenhuma de mostrar como ele aprendeu aquilo. Seria possível fazer vista grossa se isso não fosse responsável por resolver quase todos os problemas do grupo.

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Tenho 23 anos, sou jornalista formado, trabalho com textos para internet há mais de dois anos e escrevo e gravo críticas de cinema desde o final de 2017, quando criei o canal no YouTube "16mm".

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